Manifestos e nada mais!

Depois de passado o primeiro impacto do PRISM jogado na cara de todos, é hora de avaliar a gravidade e seriedade do monitoramento ostensivo feito pela NSA com a conivência da Microsoft, Apple, Facebook, Google e algumas outras empresas menos importantes. É claro que a culpa é da NSA, a agência de inteligência dos USA, mas a conivência também é crime, fazendo dessas empresas tão culpadas ou mais do que o próprio governo norte americano. Veja bem, a NSA não te prometeu sigilo ou garantia de privacidade. Já essas empresas juram, assinam e garantem total sigilo e proteção dos seu dados, exceto para traçar perfis de consumo.

É claro que a maioria dos usuários desses serviços devassos, pouco se importam com a privacidade de seus dados. A premissa é “não tenho nada a esconder, então qual é o problema que me monitorem?”. Se houvesse uma forma simples de explicar o quanto isso está errado, eu o faria. Esse é o discurso que os agentes de monitoramento usam historicamente para poder invadir a privacidade alheia. Na época das ditaduras militares na América Latina esse era o slogan utilizado pelas forças torturadoras para invadir a casa de quem deseja-se, na hora que bem entendessem. Se era um “cidadão de bem” não havia o que temer. O problema está na definição de “cidadão de bem” e de quem a cunha. Nos tempos modernos a falácia ganhou requinte e status: quem não se deixa monitorar é paranoico, está à margem, não é “cool”. Esse fenômeno também é percebido quando se trata de licenças de software. Ninguém paga, ninguém viu, não se toca no assunto, e se você o fizer, imediatamente é desqualificado como paranoico ou desajustado. Não se trata do que você pode mostrar ou não, mas o que outros jamais deveriam ver e saber. Especialmente governos e empresas. É simplesmente poder demais.

Infelizmente desse status não se imunizaram nem mesmo os bastiões brasileiros da privacidade computacional. Todas as representações da sociedade civil organizada que lidam diretamente com TI, utilizam as tais ferramentas e redes sociais devassas e se agarram a elas como sendo a única forma concreta de fazer suas mensagens atingirem o grande público. O argumento de que é necessário estar onde todos estão é muito perigoso porque implica em dar suporte direto, mesmo sem perceber, a aqueles que são alvo de sua militância. O monitoramento e invasão de privacidade é exatamente o negócio do Facebook, por exemplo. Combater essas ações é combater o próprio Facebook. Então usar essa rede devassa, para militar pela causa da privacidade e respeito aos direitos digitais, é absolutamente inócuo, porque ao fazer o trabalho de mobilização, mantém-se as pessoas às quais se quer ajudar, presas em uma rede social que faz o exatamente o oposto. A metáfora que me veem á mente é: convocar um congresso sobre higiene no meio de um Lixão a céu aberto. Faz sentido?

Com os cidadãos comuns completamente convertidos pelas facilidades e joguinhos de fazendinha das redes sociais devassas, e com os ativistas cibernéticos paralisados pelo receio de perder seu canal de comunicação, estamos seriamente ameaçados de não reagirmos de forma contundente ao escândalo do PRISM. Estamos na eminência de dar carta branca ao governo e às empresas estado-unidenses para que nos monitorem cada vez mais e de forma cada vez mais acintosa. Até o momento, organizações sociais e empresariais que se dizem ultrajadas pela iniciativa da NSA tem se limitado a fazer manifestos, cartas de repúdio e entrevistas para a mídia. Algumas, mais afoitas, consideram fazer abaixo assinados para pressionar os congressistas dos USA a tomar medidas legais, mas isso só se aplica para os cidadãos norte americanos, se vierem a ter algum tipo de efetividade. Honestamente eu duvido disso. Aqui no Brasil, sequer isso.

E ações concretas? Nenhuma. Até este momento, absolutamente nenhuma. Nem uma única organização civil, nem mesmo no seio do Movimento do Software Livre, expressou de forma pública e concreta nenhuma reação prática de oposição ao NSA, nem às empresas envolvidas. Nenhum tuitasso sequer. Há vozes sopradas ao vento, como a minha, tentando trazer algum combustível para inflamar o debate e buscar alternativas, mas parece claro que não há interesse de nenhuma das partes em mudar a situação. Por um lado os usuários continuam felizes em suas bolhas de monitoramento. Do outro estão as empresas, que obviamente não dão a devida seriedade ao caso. E no terceiro lado estão os ativistas convertidos, que insistem que usar as redes e sistemas proprietários devassos, é um mal necessário e o meio para atingir as massas.

Este é um momento histórico. O ano em que a rede inteira, em que cada cidadão conectado, decidiu se deixar monitorar de forma ampla e irrestrita. E em sendo assim qual é o sentido na militância pela privacidade e democratização da Internet? De que adianta lutar pelo marco regulatório ou Marco Civil? Se cidadãos, ativistas e empresas concordam em conviver de forma harmônica, onde os conectados são o produto, os ativistas fazem de conta que não veem e as empresas faturam. Qual o sentido em tentar garantir qualquer direito digital?

Se o Marco Civil servir para levar mais cidadãos para as redes devassas e suas aplicações proprietárias, será que ele vale a pena? Se a neutralidade da rede servir para que mais empresas que não respeitam qualquer privacidade possam explorar a Internet e nos fazer cada vez mais dependentes, será que vale o esforço de implementá-la? Se os representantes da sociedade civil organizada são coniventes com as redes devassas e seus métodos, acreditando que mais vale usá-las do que enfrentá-las, será que vale a pena tê-los? Se toda a resistência feita, forem post em blogs e abaixo assinados digitais, será que podemos sequer, chamá-la de resistência?

Até agora apenas manifestos e nada mais!

#soquenao

Saudações Livres!

@anahuacpg
anahuac@joindiaspora.com

Publicado em Artigos

Jogaram PRISM no ventilador

Interessante como o tempo passa e as teorias da conspiração vão se mostrando verdades incontestáveis. É claro que estou me referindo ao escândalo do PRISM, onde o governo dos USA admite que sua agência de inteligência tem acesso direto, irrestrito e em tempo real às bases de dados de todos os principais “players” da Internet e das companhias telefônicas dentro e fora de suas fronteiras. Resumindo, Google, Microsoft, Yahoo e Facebook permitiam que suas ideias fosses vistas “em tempo de escrita”, ou seja, enquanto você às redigia on-line.

É claro que elas tentaram negar, mas depois da declaração do “Obamis” confirmando, reiterando, justificando e defendendo os atos de escrutínio, as negativas não tiveram qualquer credibilidade. Então, caro leitor, será que você não está devendo um pedido formal de desculpas para aquele seu amigo ou conhecido que você chamou de doido, conspiracionista, paranoico ou radical? hein? Sentindo aquele friozinho chato que da no estômago quando se esta redondamente enganado sobre algo? Pois é, esse pode ser um excelente momento para rever seus conceitos. O tal amigo não quer suas desculpas verbais, lembre-se ele é um radical. Ele quer que você mostre seu arrependimento tomando uma atitude! Mas qual?

O nome do sistema – PRISM – me remeteu diretamente ao meu cursinho pré-vestibular. Um certo dia de manhã estava na aula especial de matemática onde o professor dizia que tangenciar significava “tocar” em apenas um ponto. Já no curso de física o professor falava sobre a refração da luz quando passava por um prisma. Ele discorria sobre as propriedades do ângulo de 45°, onde a luz sairia do prisma, sobre a face do mesmo, e ele descreveu essa posição do raio de luz como “tangenciando a face”. Imediatamente aquilo não parecia correto. Afinal de contas tangenciar era tocar em um único ponto, e aquele desenho no quadro, onde a luz passava por cima da face do prisma, tocava infinitos pontos. Questionei e fui surpreendido com o tom arrogante e desdenhoso do professor: “as coisas na física são diferentes do que na matemática” me disse ele. Foi preciso uma discussão que interrompeu a aula naquele dia, para que o professor admitisse que a física baseia-se na matemática e portanto não poderia subverter esse conceito. O que é certo é certo.

Desde que o PRISM veio à tona percebo a indignação geral como uma espécie de despertar. É como se todos os alertas, desde o Patriot Act, do Bush, passando pelas lendárias ações do CARNIVORE e todas as palestras do Stallman, tivessem sido em vão. As pessoas não queriam acreditar que empresas com cara de boazinhas como Yahoo, Google e Facebook pudesse fazer esse tipo de coisa. Mesmo com todos sabendo, desde sempre, da colaboração entre o “Face” e o FBI. Mas as reações mais severas tem vindo de dentro do próprio povo norte americano e credito que isso se deve a sua própria arrogância. Enquanto fossem monitorados outros países, tudo bem, mas eles mesmos? Que ultraje, um absurdo, que horror, inaceitável! :-)

Mas há uma parcela importante da sociedade que já suspeitava de forma concreta de todo esse monitoramento. Estavam bem inteirados. Tinham conhecimento de causa, conhecimento técnico e vivência nas trincheiras do combate às desigualdades sociais e dos desmandos das forças poderosas. Estou me referindo ao terceiro setor, às organizações sociais. Estas estruturas sempre se utilizaram da tecnologia como meio para fortalecer seu ponto de vista, arregimentar simpatizantes para suas causas, criar movimentos de catarse popular, tuitassos, facebookassos e demais! Afinal de contas ter boas ferramentas à disposição, gratuitas e com forte apelo popular é tudo de bom! Especialmente para essas empresas poderem monitorar a tudo e a todos, servindo como ponte para o solidário, humanitário, cristão e desinteressado governo dos USA!

Enquanto era só boato ou teoria da conspiração, então vamos usando. Não há como confirmar que o Skype grava nossas conversas, então vamos usá-lo para coordenar nossos movimentos de campanhas sociais. Vamos usar o Facebook para promover aquele movimento ou para combater a invasão de privacidade. Vamos fazer reuniões ativistas pelo Hangout (eu já fiz isso, por isso sei o quanto é maluco) do G+!

É claro que as redes sociais tem sua função e sua importância. Eu as reconheço bem. Mas nãos se podem usá-las a qualquer custo. Os fins não justificam os meios. Não para nós do terceiro setor. Nestes dias de debates acalorados um disse: “os que usam somente Software Livre tem que ser mais coerentes que os que não usam”. Concordo! E o que dizer dos vegetarianos, dos combatentes da corrupção, dos ecologistas, dos defensores dos consumidores, das liberdades cibernéticas, dos sindicatos? Igualmente. Porque faz parte do fardo de querer corrigir a sociedade ser desqualificado por qualquer falta, por menor que seja, de coerência.

Agora o rei está nu. E a sua nudez é pública, provada e comprovada. Não há mais dúvidas quanto ao monitoramento ostensivo e ativo do governo dos USA, usando essas empresas de tecnologia e telefonia, para saber da sua vida, das suas ações e das ações dos movimentos sociais organizados. Não foi acidente a CIA ter informado o Egito sobre a movimentação da tomada da praça Tahir, quatro meses antes dela acontecer. Esse tipo de poder não deveria estar disponível para ninguém e muito menos capitaneado pelos movimentos sociais.

Então este é um momento crucial e importantíssimo! Você e sua organização, movimento, coletivo, associação, sindicato, etc vai aceitar, sem reação, esse tipo de devassidão? Estou conclamando a todos para fazermos um movimento de reação organizada para esvaziar esses sistemas devassos! Vamos migrar para ambientes seguros, livres e que garantam sua privacidade. Sim isso é possível. Não temos que deixar de nos beneficiar das redes sociais. Apenas temos que saber usá-las para o bem do coletivo e não de algumas empresas e governos.

Abaixo segue uma tabelinha de opções:

A lista é muito maior e há alternativas livres e seguras para todas as necessidades.

Jogaram PRISM no ventilador. Espalhou para todo lado, respingou em todo mundo. Você vai se limpar ou não?

Saudações Livres!

@anahuacpg
Diaspora

 

 

Publicado em Artigos

Contra Ativismo

A organização civil que busca o contraponto aos desvios de conduta dos sistemas de exploração sempre existiu: sindicatos, associações, cooperativas e ONG, por exemplo. São fruto da percepção aguçada de alguns destaques, de mentes brilhantes e de espírito combativo. É provável que essas organizações sejam a tênue linha divisória que nos separa da selvageria do modelo de exploração pelo capital, como ocorreu, por exemplo no primeiro período da dita “revolução industrial”.

Os ativistas sociais trazem em si o sentimento crítico, a capacidade de perceber os meandros obscuros nas propostas dos podres poderes e uma disposição nata para combater as injustiças. Tomemos como exemplo os salvadores de baleias “Sea Shepard”, que arriscam suas vidas em missões de combate à pesca de consumo, disfarçada de pesquisa científica, promovida pelo governo do Japão, no Mar Antártico.

É óbvio que combater o “status quo”, seu marketing, os interesses, as lei de interesse restrito e a mídia vendida, que juntos atuam em equipe para sobrepor seu deturpado “way of life” exige um esforço e tenacidade que beiram o extremismo religioso. Por isso mesmo, não é raro serem eles taxados de Xiitas, extremistas, radicais, intransigentes, etc. Lembro bem da pecha de “eco-chatos” dados aos ambientalistas mais radicais.

Essa obstinação, pode levar a certos desvios de conduta, que para qualquer pessoa comum, seriam impensáveis. Tomar banho com meio balde de água fria, não comer nenhuma comida de origem animal, não vestir nenhuma pele ou não usar nenhum software proprietário. E para esses seres acima da média, não há exceções aceitáveis. Sua percepção da realidade entende o erro e não pretende dar-lhe margem para ser exercitado. Estou me referindo aos vanguardistas que preferem se vestir com um saco de batatas usado, feito do mais bruto algodão, do que vestir um casaco de couro. Há aqueles que preferem não ouvir a voz da mãe do que utilizar um programa privativo de voz on-line.

O esforço necessário para propagar seus ideias é tamanho que alguns desvios terminam parecendo necessários, aceitáveis ou até mesmo positivos. Quem sabe degolar uma dúzia de vacas em praça pública? Certamente chamaria a atenção da mídia para o maltrato dos animais. Quem sabe construir algumas bombas atômicas e desafiar a ONU? Bom, isso o ex presidente Bush já fez, e acreditem, ganhou um Nobel da Paz. O problema está na falta de coerência entre o meio e forma escolhidos para chegar a maior quantidade de pessoas possível e a causa defendida.

Richard Stallman sempre deixou claro que não importa a quantidade de usuários de GNU/Linux, mas a quantidade de pessoas que, realmente, entendem a filosofia social e política dos Software Livre. Então, enquanto a FSF e seus ativistas trabalharam muito para conscientizar e tratar sobre os temas relativos à liberdade, um outro grupo trabalhou com foco na adoção e uso dos Softwares Livres. O argumento de que era necessário criar um volume grande de usuários para, então, promover a consciência libertária faz sentido, mas está essencialmente equivocado. Não adianta criar uma massa de usuários que ignoram a importância dos que estão usando. Essas pessoas estarão sempre, a mercê do mercado, pois não estão cientes da importância de sua liberdade tecnológica. O melhor exemplo disso é a popularização do Android, que é um sistema operacional livre, mas que não tem ajudado a conscientizar as pessoas. Não é estranho ver usuários incautos de Android, comparando seus equipamentos com o iPhone ou iPad, sem nunca tocar no quesito liberdade.

Esse mesmo desvio de conduta faz com que ativistas, de todas as vertentes, acreditem ser aceitável abrir mão de sua privacidade e segurança, utilizando softwares privativos e redes sociais devassas. Traduzindo: Windows e Facebook, por exemplo. O argumento é que esse é um mal necessário para permitir que a maior quantidade possível de pessoas tenham acesso a sua mensagem. Mas esse é o um argumento falho por sua contradição, tanto quanto tocar fogo em um zoológico lotado de animais, para provar a crueldade de manter os bichos presos.

Então vamos tentar entender alguns desses erros de percepção:

1) Não me importo com o monitoramento ativo das redes sociais, os dados relativos ao meu ativismo pois essas informações são públicas e, portanto, não há nenhum problema se a CIA, FBI ou qualquer outra agência me monitorar.

2) Usar Windows e Skype é o que me permite manter contato com os demais ativistas e entidades. Se quiser fazê-lo tenho que usar ferramentas que são amplamente aceitas no mercado. E mais uma vez, não importa o monitoramento e gravação das conversas.

3) A minha preocupação não é com a ferramenta que uso mas com o resultado obtido. Essa preocupação com o uso de softwares livres e redes sociais devassas é infantil e inútil.

Esses argumentos revelam graves desvios de conduta, especialmente quando utilizados por ativistas sociais. O monitoramento ativo promovido pelas agências de inteligência, tem e terá efeitos devastadores no controle social e mercadológico. O custo de adquirir e manter atualizado o comportamento e ações de bilhões é absolutamente inviável, exceto se as pessoas o fizerem de forma proativa e gratuita. A maior ameaça é a capacidade de definir tendências de comportamento social, antecipando ações do povo, avaliando a aceitação de produtos e ou políticas intervencionistas. Ficção? Lembra da ocupação da praça Tahir no Cairo? A CIA a previu com três meses de antecedência. Permitir que os combatidos sejam capazes de ler, ver e ouvir, toda a sua comunicação e se antecipem às suas atividades e ações, é pouco inteligente e até mesmo perigoso.

Os fins justificam os meios, já dizia Maquiavel. Qualquer ativista sério dirá que essa não é uma política aceitável, como já exemplifique à exaustão, os meios importam e muito. A incoerência em si é um erro crasso, mas as implicações destas são nefastas pois se supõe que o ativista visa mudar o “status quo” e não ajudar a perpetuá-lo. Mas usando os softwares privativos e redes sociais devassas, qual é a mensagem que se está passando? Vanguardista, inovador, questionador? Ou conservador, convivente, inoperante?

Finalmente vem a desqualificação. É uma reação natural para os que querem impor sua forma de ver o mundo. Trata-se de minimizar a importância dos argumentos para justificar a perpetuação do erro. É, no mínimo, triste ver ativistas utilizando esse meio pernicioso, típico dos podres poderes, quando defendem suas ações. Basta lembrar de todos os meios de desqualificação promovidos pela Microsoft em relação ao software livre. Os defensores e membros do movimento foram taxados de “cabeludos irresponsáveis” – eles não conheciam o “cabelo” – imaturos, amadores, feios e muito mais. Ao perceber que não havia como evitar o avanço do Software Livre, decidiram separar, de forma sistemática, o técnico do filosófico. Transformam GNU/Linux em Linux.

Quando o ativismo usa meios errados para atingir o seu fim, ele não vale a pena. Trata-se de um tipo pernicioso de ativismo, porque leva à cegueira os convertidos desse ativismo. Esses convertidos não perceberão a incoerência, mas apenas, o “motivo maior” e estarão condenados a continuar errando e com isso alimentam esse erro.

Não se pode combater a corrupção, corrompendo. Não se pode combater a fome, deixando comida no prato a cada refeição. Não se pode defender os animais usando peles. Não se pode defender a privacidade, usando redes sociais devassas.

Não há ativismo sério usando Software Privativo. E agora não há mais a desculpa de que você não sabe disso.

Quando um ativista usa a desculpa do “temos que estar onde todos estão”, ele continua sendo um ativista? Ou foi convertido?

Saudações Livres
@anahuacpg

Publicado em Artigos

Yes, we fan!

É claro que o assunto parece batido e amassado, mas depois do anúncio do novo Hangout pelo Google, eu não poderia me ausentar de relembrá-lo sobre a sua cegueira de fã. Empresas como Apple, Samsung, Google e Canonical transformaram a tecnologia em algo divertido, agradável e consumista. É muito legal ter um tablet, mas é ainda mais legal se ele for um iPad. E é muito exclusivo ter um S4, especialmente porque não há nenhum motivo plausível para que ele custe o mesmo que um notebook i7 com 8Gb de RAM e 1TB de disco. Seguindo a mesma estratégia da moda, onde o mesmo pano, desde que confeccionado por um ou outro custe de 30 a 300 mil “dinheiros”, trata-se de Grife pura e simples. E neste caso a exclusividade não é só de quem pode pagar, mas para quem o fornecedor quer vender. É como ter uma Ferrari: não adianta ter só o dinheiro se não for aceito no seleto clube de pessoas a quem a Ferrari vende seu carros. Pois é, não basta ser rico, tem que pertencer à gangue!

Mas empresas como o Google e Canonical tinham um componente a mais, elas criaram seus produtos com pitadas de responsabilidade social, ecológica e de liberdade. Nos fizeram acreditar que eram empresas conectadas com a tendência de que é possível criarmos um Mundo melhor, mais justo e fraterno. É claro que a maioria esmagadora dos ativistas de várias tendências, caíram feito “patinhos” nessa balela. Eu inclusive.

Essas são empresas e como tal, são sociopatas. O documentário http://thecorporation.com/ deixa isso claro e por isso recomendo muito que ele seja visto. Eles só visam uma coisa: lucro. Nada mais. E nesse processo vale tudo, inclusive mentir, contradizer-se, processar os concorrentes, comprar as menores e até mesmo reverter posturas negociais consolidadas. A Microsoft e Oracle sempre foram excelentes exemplos dessa mecânica suja de negócios, onde o objetivo maior é atingir o monopólio e fazer o mercado engolir seus produtos mal feitos. E não há outra forma de explicar sua representatividade de mercado, afinal foi pelo monopólio que chegaram a ter impressionantes 95% de suas respectivas fatias de mercado. Mas o mais impressionante é que eles conseguiram, também, criar uma legião de fãs, cegos, surdos e loucos, que continuam usando seus produtos, defendendo suas técnicas de mercado e são avessos a qualquer argumentação em contrário. São esses que ainda usam Internet Explorer e gostam.

O fanatismo desses usuários é algo que se perpetua nas ferramentas do Google, seu buscador e serviço de chat e vídeo, por exemplo. A ferramenta é tão boa que consegue fazer frente ao Skype, mesmo depois de sua aquisição pela Microsoft. E a razão de sua qualidade e popularidade era o fato de se basear em um protocolo livre conhecido por “jabber”. Esse é um protocolo livre e aberto e assim permitia que os serviços de comunicação do Google fossem integrados com diversos outros servidores e serviços disponibilizados na Internet. Assim era possível usar uma conta de qualquer servidor Jabber para conversar por chat, áudio e vídeo para se comunicar com qualquer usuário do Gmail, por exemplo. Então a disseminação se deu, o mercado foi cativado e graças ao sentimento coletivo de que o Google respeita sua privacidade e liberdade, ele foi amplamente adotado. E essa adoção massiva criou a massa crítica necessária para que o “golpe” fosse dado. A partir do novo Hangout essa interoperabilidade não será mais possível. É isso: subitamente meus contatos que tem contas no Gmail/Gtalk não mais conseguirão se comunicar, via chat, comigo, e vice-versa.

É claro que muitos defenderão a estratégia do Google, assim como não faltaram paladinos para apoiar a cretinice da Canonical quando colocou um Spyware no Ubuntu sem avisar nada a ninguém. Dirão que se trata de uma empresa e que se ela quiser crescer e se manter no mercado ela precisa inovar, e se para inovar ela precisa eliminar a compatibilidade com os protocolos abertos, isso é válido. Discordo, é claro. A Google já deu sinais claros, desde faz uns anos, de que não respeitará nada nem ninguém. Ela sugará do mercado, dos novos modelos de desenvolvimento colaborativo, e da comunidade FOSS tudo o que puder, mandando migalhas aos porcos para os fazer felizes. Um desses mecanismos é o tal Google Summer of Code, que se esconde atrás da pecha de apoio acadêmico e estímulo à inovação e leva brilhantes jovens cérebros a criar e desenvolver soluções fantásticas a troco de premiações ridículas.

Então a Google vai incompatibilizar o protocolo de comunicação, isolando seus usuários dentro de seu próprio serviço. Será o novo Skype, que quando foi comprada pela Microsoft, eliminou o plugin que permitia a conexão com o Asterisk, ou seja, isolando seus usuários. O passo seguinte da MS foi monitorar de forma ainda mais descarada as conversas, inclusive acessando URL’s e usando usuários e senhas que são reveladas nas conversas.

Então essas empresas usam todos os meios disponíveis para isolar, monitorar e monetarizar seus usuários, e quanto mais elas se tornam agressivas nesse sentido, mais fãs elas conseguem. O nome disso, na psicologia moderna, é complexo de Estocolmo. Não faz nenhum sentido que usemos ferramentas que nos causem danos, mas os verdadeiros fãs não conseguem perceber o mal que lhes é infligido. Me lembro bem caso da banda Metalica, que no auge da discussão sobre legalidade ou não de se compartilhar músicas por meios P2P, terminou declarando que consideravam essas pessoas criminosas e que todas deveriam ser presas! Eles só esqueceram que esses tais “criminosos” eram, ou são, seus fãs, os verdadeiros responsáveis pelo seu sucesso e riqueza.

Facebook com seus entreguismo à CIA e FBI, a Canonical com seus Spywares escondidos, o Skype com seu monitoramento ativo e agora de forma franca o Google, com a criação de seu curral de usuários. É assustador o que vem por ai.

Mas o que mais me preocupa é que os ativistas, especialmente os do movimento Software Livre, estão rendidos, estupefatos, silenciosos, como as fãs do Justin Bieber. Ainda me lembro do tempo que éramos a vanguarda, críticos e combativos. Quando acreditávamos que privacidade, liberdade e respeito aos direitos dos usuários de TI estavam acima de qualquer firula ou gracinha provida por qualquer grande player do mercado. É claro que havia um grupo de exceção, que só usava FOSS apenas porque era tecnicamente melhor, mas a situação hoje é tenebrosa. Estamos sucumbindo, um a um, às ditas facilidades e conveniências dessas ferramentas e suas empresas fantásticas. Estamos perdendo para nós mesmos.

É claro que podemos inventar qualquer desculpa, mais ou menos coerente, mas não há como negar que se submeter a essas ferramentas e suas políticas de uso e licenciamentos, é nocivo. Nocivo à liberdade, ao respeito ao cidadão e à cidadania e poderá condenar para sempre o tal “Mundo Melhor”. Insisto: usar essas ferramentas não ajuda sua causa social “do bem”, seja ela qual for. Não há coerência nenhuma em usar armas de fogo para defender a paz, por exemplo.

Então o que explica a massa de ativistas que se aprisionam nessas ferramentas? Como conseguem se esconder atrás das finas estacas do curral no qual se transformaram FaceBook, Google, Skype e Canonical? Como podem acreditar, por um segundo sequer, que estão ajudando as pessoas e o Mundo se submetendo a suas praticas vis de negócio e conquista de mercado? Como podem aceitar serem os vetores de entrada e permanência de pessoas que os tem como referência, nessas redes de pesca cybernetica? Como defensores das liberdades se aprisionam assim? Como os defensores da privacidade se depravam assim? Como os combatentes da corrupção se corrompem e ajudam a corromper assim? Mas verdade é que somos incoerentes por natureza: o próprio documentário que citei acima, está disponível para compra, por um dos sites, de uma das corporações mais sinistras da atualidade, o iTunes. É mole?

O mais provável é que este artigo, assim como os demais que tenho escrito sobre o tema, termine sumariamente ignorado ou desqualificado como criancice. Eu só não quero viver para ver os velhos, e novos, companheiros de batalha do Software Livre, em uma fila do lançamento do “Google Home”, gritando em uníssono: Yes, we fan!, Yes, we fan!, Yes, we fan!

Saudações Livres
@anahuac

Publicado em Artigos
Enquete Relâmpago

Se um programa de TV me convidar para falar sobre privacidade na Internet, eu devo aceitar usar Skype para participar?

  • Não (48%, 26 Votes)
  • Sim (44%, 24 Votes)
  • Indiferente (8%, 4 Votes)

Total Voters: 54

Carregando ... Carregando ...
Tweet
  • Loading tweets...